Silêncio
As vezes o silêncio me perturba, tão ou mais do que o barulho mais chato. Em silêncio consigo ouvir a minha respiração, presto atenção na batida do meu coração, e sinto com profundidade tudo o que meus olhos vêem. Em silêncio eu presto atenção em meus medos, imagino sentir sede, tento achar subterfúgios para fugir dos meus pensamentos. Em silêncio me sinto nua, não tenho aplicativos e nem alternativas para mascarar minhas fraquezas, em silêncio me coloco no lugar de Deus, e tendo achar solução para todos os problemas do mundo, como o mundo é barulhento, como as mazelas do mundo são ensurdecedoras... Acalmo minha respiração e ouço bem baixo o choro fraco de uma criança, e neste momento minha cabeça dói, o melhor que há em mim se fere em piedade de saber que enquanto presto atenção no meu medo, neste exato momento há em alguma parte do mundo uma criança sucumbindo a morte sem poder abraçar seus pais... Tento fugir destas visões, ouço barulho de tiro, ouço barulho de sirenes, sinto o cheiro podre de porcos engravatados regados a vinho e a sangue planejamento seu novo deleite, deleite em cima de vidas inocentes... Coço meus olhos, procuro voltar a mim, canso de ser os olhos de Deus, não quero mais o seu lugar, sinto meus olhos marejados de dor e sal, e ao abrir-me ao mundo novamente tenho a percepção mais apurada, agradeço e sorrio ao ver os reflexos do sol, sinto uma gota tocar minha face, e nesta complexidade da dor e do prazer, da tragédia e da vida, dos dias que se arrastam para que possamos aprender a lidar com perdas e ganhos, como loucos em um sanatório, cercados, fechados, sufocados mas sempre a espera de um novo amanhã. E logo após me sentindo livre como um pássaro que tem a condição de medir e optar por cada passo, é como se em todos o tic tac do meu relógio eu estivesse em uma corda bamba... Consigo achar graça de tudo isso, lembro novamente da criança e ao olhar atentamente em sua imagem me vejo, a criança não se foi, ela não poderá se perder, essa morte não era palpável a criança ainda pulsa em mim, e clama para que eu a abrace, a deixe despertar, deixe que ela tome conta e coloque a partitura em sua perfeita harmonia... Os cheiros mudam, as sensações mudam, o que era dor virou perspectiva, a criança me beija o rosto, apanha uma flor, entrega em minhas mãos como forma de agradecimento e me apresenta o barulho agradável, sereno e esplendoroso de nascer a cada dia para uma nova vida.... By Silvia Gomes...
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